Os Muros e a Cidade
* Luiz Henrique Dias
Certa vez, na Faculdade de Arquitetura, fizemos uma visita técnica a um condomínio fechado, aqui em Foz, em uma aula de Projeto Arquitetônico e, ao ver o vislumbre dos colegas por aquele lugar, soltei a frase “Coitadas dessas pessoas que moram aqui. Pagam para viverem em uma prisão urbana”. Foi o pânico! Ouvi desde “seu extremista” até “seu invejoso”. Como sempre, não saí ileso das situações criadas por mim diariamente, mas aprendi bastante sobre o efeito da palavra falada (e escrita).
De lá para cá a cidade muda a cada dia. Os famigerados condomínios se proliferam.
Hoje, com o apelo de serem financeiramente “acessíveis” não só para as classes no topo econômico da sociedade, mas também para a classe média, principalmente a nova classe média brasileira, os agrupamentos humanos murados tornaram-se o sonho de consumo de quem deseja adquirir a casa própria ou comprar um novo imóvel residencial. Para atrair ainda mais os consumidores, faz-se uso do noticiário de violência (farto por essas bandas), e abusam da palavra do momento: segurança. Os muros altos são feitos antes mesmo do urbanismo. Em seguida, câmeras, cercas eletrificadas, vigilantes treinados, áreas sociais completas no interior dos residencias, dando ao morador a opção de trancar-se ali para sempre, se quiser. Em grandes cidades, infestadas de muros, os mega-condomínios já oferecem comércio, escola e clínicas odontológicas. Essas “inovações” não tardarão a chegar. A segurança do lado de dentro produz insegurança do lado de fora. Os muros altos deterioram a cidade e atrapalham a vida das pessoas. Somos obrigados a caminhar por quarteirões inteiros cercados e por ruas que são verdadeiros túneis.
É um processo de degradação e segmentação social. Le Corbusier, arquiteto francês, sempre defendeu o convívio. Mas não esse que vemos aí: segmentado. Vida de iguais com iguais. Convivência de pessoas de mesma classe social. Crianças que pouco sabem do mundo fora dos muros. Muros na escola, muros na casa, muros em todos os locais frequentados. Carros com recursos de som e imagem para dispersar o “olhar o mundo lá fora”. Vidros fechados para evitar o vento e os assaltos. Pessoas privadas, por elas mesmas, da liberdade e da oportunidade de viver a heterogeneidade social de um mundo global. Cidadão com amigos virtuais em várias parte do mundo, mas desconhecedores da identidade do primeiro vizinho depois do muro de seu condomínio. O mídia da insegurança rende divisas aos que oferecem “segurança”. É o verdadeiro terror.
A violência urbana é fruto da própria sociedade e de sua segmentação. O Estado tem o dever de oferecer segurança a todos. É fato. Mas é também o Estado que deve criar regras claras (e não flexibilizar) a construção desses espaços fechados que só fazem “bem” para quem está lá dentro. A cidade, e tudo dentro dela, deve ser social, acessível e democrático. Viver dentro de bolhas não ajuda nada, só atrapalha.
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* Luiz Henrique Dias é escritor, ator, membro do Núcleo de Dramaturgia do SESI, estudante de Arquitetura e Urbanismo e comunista (convicto). É daqueles caras que gostam de caminhar pela cidade, conversar com as pessoas e viver a heterogeneidade do espaço urbano. Alguns o chamam de idealista, outros de louco. Ele prefere se auto-intitular “vivo” e, para isso, apenas viver. O Luiz escreve todas as segundas na Gazeta do Iguaçu e, diariamente em seu blog. Acesse: acasadohomem.blogspot.com e siga @luizhdias no twitter.
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* Luiz Henrique Dias Certa vez, na Faculdade de Arquitetura, fizemos uma visita técnica a um condomínio fechado, aqui em Foz, em uma aula de Proj