Opinião

A Ocupação do Haiti

Vale a leitura. Segue abaixo a íntegra do Editorial da última edição da revista ISTOÉ (22 de janeiro) sobre a presença norte-americana. Como poderemos ver mais uma vez, apesar do Obama, pouco coisa mudou nas atitudes dos que se acham ainda donos do mundo.

"A Ocupação do Haiti"


Carlos José Marques, diretor editorial

A cena do desembarque ostensivo das forças americanas na sede destruída do governo do Haiti diz muito sobre o tipo de prioridade que rege a mobilização dos EUA naquele País. O esforço para controlar e garantir a segurança política haitiana se sobrepõe ao suprimento das necessidades básicas de vida, de resgate, de atendimento médico, de assistência a um povo castigado pelo sofrimento incessante. A marcha de soldados armados para sinalizar ordem reforça a mensagem imperialista e deixa em segundo plano a missão humanitária.
Politizou-se a ajuda. Em mobilizações midiáticas, os EUA tomaram conta! Assumiram o aeroporto, passaram a administrar o tráfego aéreo, estabeleceram quem chega e quem sai. Lá, a bandeira americana já está hasteada no lugar da haitiana, numa clara afronta à soberania local. Por anos, os EUA temeram a democracia no Haiti e talvez daí o imenso aparato militar que agora mandam para lá. Com seus helicópteros Black Hawk descendo sobre o palácio presidencial, quiseram, simbolicamente, mostrar quem manda. Apresentam-se desta vez como redentores, mas são os mesmos que tentaram derrubar o governo eleito daquele país.
Os mesmos que estabeleceram um embargo comercial capaz de estrangular a economia local. Os mesmos que por décadas patrocinaram ditaduras haitianas acusadas de cometer toda sorte de desmandos, massacres, crimes que, tanto como o terremoto, ajudaram a destruir o Haiti. Para um povo privado do sentimento de cidadania, da sensação de nação, da percepção de existência de um Estado operando serviços públicos essenciais, qualquer ajuda é bemvinda. Mas o esforço multilateral deveria se concentrar no pronto restabelecimento de sua dignidade. Pelo desespero da fome, da falta de casa e de condições mínimas de sobrevivência em meio aos escombros, os haitianos fi caram à mercê do caos, vivem em estado primitivo, vagando em hordas pelas ruas na busca de abrigo e alimento, enquanto anseiam pela reconstrução rápida, antes que todo o país se perca nas ruínas.
É nesta direção que as forças de paz devem atuar e a primeira noção que os candidatos a salvadores dessa pátria precisam ter é a de que o Haiti não é um país a ser ocupado, mas ajudado.

Revista ISTOÉ – No 2098 – 22 de janeiro de 2010 - Editorial

1 Comentários em A Ocupação do Haiti

  • Noraldino Santos Nascimento

    29/01/2010

    O que vem me chama atenção nessas "ajudas humanitárias", principalmente a oferecida pelos norteamericanos, é que com todo potencial e aparato bélico para assumir posição em menos de 24h em qualquer lugar do planeta, eles não tem condições de fazer uma entrega verdadeiramente humana, sem permitir que esfomeados se matem uns aos outros. É difícil? Claro que é, mas mais difícil ainda era chegar a lua, e eles chegaram a décadas. Não é bonito jogar comidas do alto de aviões e de caminhões para pessoas famintas. Eles vão brigar mesmo, e só os mais forte terão comida. Em tese, quem precisa de alimento e medicação com mais urgência são os mais fracos e doentes. O himaginário de qualquer serhumano que sofre com os haitianos diz que se o mundo inteiro se mobilizar é possível fazer com que sofram menos, usando o aparato militar para horganizar filas, que seja centenas delas, socorrendo bairro por bairro. Infelizmente a ajuda humanitária norte-americana sempre veio acompanhada dessas demonstrações de força, mas nunca de humildade. É isso.

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