O CASO DA SACOLA
Opinião

O CASO DA SACOLA

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Por Luiz Henrique Dias da Silva
Na medida do possível, tento não utilizar sacolas de plástico. Exceto em casos onde não há outra opção, mas, mesmo assim, dou preferência para os polímeros ditos “biodegradáveis” que apareceram por aí.
É muito comum ouvir comentários engraçados dos comerciantes como “vai levar na mão mesmo?” ou “você não acha feio andar por aí carregando uma caixa de leite”, enfim, aos poucos as pessoas vão se acostumando com isso. A mulher da padaria perto de casa já nem me oferece mais as sacolinhas. Outras pessoas, como a moça da farmácia, ainda fazem brincadeira “vou te dar um descontinho, já que vou economizar na sacola”. E a minha vida segue desta maneira dia-a-dia, tentando mostrar para as pessoas o quanto podemos melhorar o mundo se cada um fizer a sua parte.
Na última quarta-feira, fui até uma grande loja na Avenida Brasil comprar um eletrodoméstico. Na verdade, era uma cafeteira, para meu escritório. Costumo ser rápido na compra, pois não gosto daquele ambiente de consumo exacerbado. Subi até o segundo piso, olhei rapidamente as opções e, antes que algum vendedor tentasse me empurrar algo, peguei a cafeteira mais barata e fui em direção ao caixa. Este estava vazio e não precisei esperar. Efetuei o pagamento e, na hora que fui levar o produto, a funcionária me ofereceu uma sacola. Educadamente disse a ela que eu não queria, primeiro porque eu não usava sacola e, segundo, porque era uma sacola comum, daquelas nem um pouco biodegradáveis. Fiquei impressionado, então, ao ouvir dela “o senhor tem que colocar o equipamento na sacola, por causa da segurança da loja”. “Não moça” – disse eu – “não uso sacola. Vou levar na mão e, caso alguém me pergunte, mostro a nota fiscal e pronto”. Percebendo que ela não deixaria eu levar minha cafeteira na mão, tentei propor, então, colocá-la em minha mochila ou em uma outra sacola em que eu já levava alguns objetos. Sem dar ouvidos para minhas palavras, ela colocou meu produto numa sacola da loja e me entregou dizendo: “Se você quiser a sacola, jogue a sacola em algum lugar, mas não pode sair daqui com o produto na mão”. Tentei ainda explicar “não é questão de querer ou não. Esta sacola me é útil sim. Posso acondicionar lixo, por exemplo. Mas eu tenho muitas em casa. Tenho uma até aqui comigo... não preciso”. Ela foi irredutível. Não teve jeito. Tive que sair com aquela sacola nas mãos e levá-la para casa. Na saída da loja um segurança conferiu se eu estava com minha sacola. Pensei então qual a lógica da gerência do lugar em estabelecer o uso da sacola plástica como estratégia de segurança. Não seria melhor rever este conceito. O uso (indiscriminado) de sacolas plásticas, nesse caso, parecia justificado pela conservação do patrimônio privado. Mais uma vez o privado acima do público e mais uma vez as grandes empresas mostrando o quanto esta conversa de responsabilidade social é mera estratégia publicitária para parecerem aquilo que não são: amigas da natureza.
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LUIZ HENRIQUE DIAS DA SILVA é escritor, estudante de arquitetura e urbanismo e comunista (convicto). Ele escreve todas as segundas no jornal A Gazeta do Iguaçu e, diariamente, em seu blog acasadohomem.blogspot.com, onde faz uma reflexão do espaço urbana, com doses de é poesia. O Luiz não gosta de usar sacola plástica e é considerado um esquisito na vizinhança. Dia desses, uma vizinha o viu levando dois litros de leite na mão e perguntou se ele queria uma sacolinha emprestada. Ele disse que não e ela comentou “levando assim, parece que você roubou o leite”. Chateado o Luiz pensou “então quer dizer que se eu fosse um ladrão e levasse em uma sacolinha todos me achariam uma pessoa correta. Agora, somente porque não quero ajudar a degradar o meio ambiente, todos me vêem e me julgam ladrão. Curiosa a lógica das pessoas”. E seguiu para casa. Sem sacola, sem respeito, sem coração. O Luiz é assim: idealista.




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