Dalton Trevisan e José Saramago: palavras no limite?
por Nilton Bobato
A partir de fevereiro de 2009 não consegui ler um livro de literatura sequer, exceto as leituras necessárias para estudos e da rotina dos noticiários, 2009 foi um ano em que acumulei livros na estante. O período de final de ano me permitiu voltar a uma das coisas que mais me dá prazer, escrever e ler literatura. Espero em 2010 conseguir estabelecer uma rotina de leitura, tenho quase 30 livros adquiridos durante o ano esperando para ser degustado.
Comecei este balanço com dois livros de leitura rápida: Dalton Trevisan (Violetas e Pavões) e José Saramago (Caim), ambos lançados no final de 2009. Com eles tento voltar a rotina de publicar minha visão das obras que leio e divulgar um pouco de nossa literatura.
Dalton e Saramago, dois autores que não precisam provar nada para ninguém, muito menos para mim. Dois autores que tenho como referência de literatura. Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba, o homem que vive recluso (se isso for verdadeiro, de onde ele busca elementos para suas narrativas, tão contemporâneas?), um dos maiores contistas da literatura brasileira contemporânea. Saramago, o maior escritor contemporâneo de língua portuguesa, o único lusófono Nobel. Falar o quê deles?
No entanto, as sensações que tenho tanto de Violetas e Pavões, como de Caim, é de que eles erraram a mão. Antes que me atirem pedras, explico e começo com Dalton Trevisan.
Sou apaixonado pelo conjunto da obra de Dalton Trevisan, escreveu alguns dos melhores contos rápidos que conheço, como Uma vela para Dário, Cemitério de elefantes ou Penélope. É natural que espere sempre coisas neste nível, mas Dalton mudou, mudou sua forma de escrever, mudou sua temática, já não é mais aquele Dalton e precisamos entendê-lo.
Em “Violetas e Pavões”, Dalton Trevisan repete a fórmula começada em “Macho não ganha flor (2006)”, com narrativas em primeira pessoa, como se construísse uma novela trágica, com histórias de violência policial. Já não tem mais os joãos e marias inocentes da Curitiba antiga, com suas histórias que viajavam entre o trágico e o cômico.
No “Violetas e Pavões”, em pelo menos três contos o vampiro de Curitiba apresenta resquícios de suas narrativas antigas: A desgraça de Zeno, Tenha uma boa noite e Elas cantam só pra mim. As três narrativas resgatam a velha mão daltônica. Em outras duas: Violetas e pavões e Lábios vermelhos, Dalton traz duas surpreendentes narrativas quase eróticas. As demais narrativas, com uma ou outra exceção, Dalton apresenta a busca pelo Buba, um traficante que colocou muita gente em fria.
Já Saramago, coloca em Caim e deixa explícito sua crítica à religião cristã. Sem medo, ele constrói uma narrativa próxima do realismo fantástico, onde Caim é o personagem que culpa deus pela morte de Abel, seu castigo é vagar pelo mundo. Nesta viagem, Caim repassa os principais episódios do Velho Testamento, onde sempre se apresenta um deus violento, que manda seus seguidores (Moisés, Abraão, Noé e tantos outros) cometerem crimes em seu nome. O personagem deus é quase um chefe militar e é enfrentado por Caim, que o desafia constantemente. Deve ter provocado a ira de vários chefes religiosos.
Não quero tratar aqui da temática, mas sim do texto literário do camarada Saramago. Continua com uma capacidade impressionante de construir narrativas, um texto leve e ao mesmo tempo robusto, que nos faz ler sem parar do início ao fim, no entanto nesta obra visivelmente Saramago deixou sua necessidade de criticar a religião cristã sobrepujar seu texto literário. A obra poderia ter um tom irônico e é isso que dá a entender no início da narrativa, a relação de Caim com Lilith e até o seu primeiro encontro com Abraão. No entanto a partir daí a narrativa beira ao sarcasmo exagerado.
Apesar das críticas, as duas obras valem a leitura.
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por Nilton Bobato A partir de fevereiro de 2009 não consegui ler um livro de literatura sequer, exceto as leituras necessárias para estudos e da