Júlia, um romance para mostrar que a história aconteceu em outros lugares
Por Nilton Bobato
Quando falamos em literatura, lembramos sempre de alguns autores nacionais consagrados, de alguns queridinhos da mídia nacional pelo simples fato de morarem próximos e conviverem com os mais conceituados críticos da área. Quando falamos em literatura paranaense, nos vem a memória o nome de Dalton Trevisan, quando muito de Paulo Leminski ou Domingos Pelegrini, nos esquecemos que moramos em um Estado que é hoje referência nacional em literatura, não nos damos conta que temos o mais premiado escritor contemporâneo brasileiro, Cristovão Tezza e outros nomes como Miguel Sanches Neto, Paulo Sandrini, sem falarmos nos locais como Aluisio Palmar, todos integrantes da cena nacional, sem, no entanto, integrarem nosso imaginário na hora de lembrarmos da literatura brasileira.
Pois é, tenho procurado ler estes autores, os nossos locais e vários outros restritos a suas regiões no Estado (falarei deles outra hora). O último deles que li foi o romance Júlia, de Roberto Gomes, um autor catarinense radicado em Curitiba desde 1964, que aliás quase não comprei o livro por puro preconceito (onde já viu andar lendo um romance intitulado Júlia). O romance conta a história da poetisa Júlia da Costa, da paradisíaca ilha catarinense de São Francisco do Sul, contemporânea do período da Proclamação da República.
Além de uma narrativa deliciosa, leve, com personagens em profundos conflitos psicológicos, cheia de elementos machadianos, o romance trás mais que a vida amorosa conturbada de uma poetisa pobre, que viveu em uma época em que mulheres eram quase proibidas de escrever e se manifestar publicamente. O romance nos apresenta uma personagem, que com suas contradições (era monarquista) defendia idéias feministas e direitos simples como o de se casar com quem estava apaixonada, mas também nos revela que a história brasileira não aconteceu somente nos grandes centros, ou no Rio Grande do Sul ou no Nordeste, que uma ilha remota como São Francisco, a incipiente Joinville (até então Colônia Dona Francisca) ou a ainda Desterro (que seria Florianópolis depois, centro de uma disputa para ver quem homenageava o Marechal Floriano), também tiveram participação importante neste momento fundamental da vida nacional.
Afora o brilhantismo literário, o maior mérito de Júlia é nos revelar esta faceta da história nacional (claro que romanceado). Vale a leitura da obra de Roberto Gomes. Editora Leitura (Belo Horizonte, 2008) – 318 Páginas
DEZEMBRO
Por absoluta falta de oportunidade não falei das minhas leituras de Dezembro/2008, quando a página já estava no ar. Li a mais nova obra de José Saramago, a A VIAGEM DO ELEFANTE, uma hilariante história que envolve o presente da família real portuguesa, no Século XVI, ao arquiduque de Viena: um elefante. Imaginem a saga deste animal sendo transportado de Lisboa a Viena, em pleno inverno europeu. O resto é ler, com a verve de Saramago. Ed. Companhia das Letras (São Paulo, 2008) – 256 páginas.
Também a mais nova obra do amazonense Milton Hatoum: ÓRFÃOS DO ELDORADO. Como todos os romances, também situado na Amazônia do Século passado, Hatoum (autor entre outros de Dois Irmãos e Cinzas do Norte), conta a história de um homem em conflito com o pai (dono da maior companhia de navegação daquelas bandas) e quando herda a fortuna a destrói. Uma história de desencontros, com povos e lendas amazônicas. Vale a leitura. Ed. Companhia das Letras (São Paulo, 2008) – 107 páginas.
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