Presidente da Guarda Mirim, Hélio Candido do Carmo.
Advogados, jornalistas, professores, administrados, muitos profissionais que hoje ocupam lugar de destaque em suas carreiras tem uma trajetória em comum na cidade: a passagem pela Guarda Mirim. A Instituição criada há mais de 30 anos, é referência de formação de cidadania, de oportunidade de primeiro emprego e inserção social para muitos profissionais que hoje retribuem o aprendizado para a sociedade.
Além do saudosismo dos que já fizeram parte da guarda, para os adolescentes que ingressam na Instituição anualmente, o clima é de expectativa e perspectiva par a o futuro. Para ilustrar a importância da Instituição na cidade, nossa entrevista do “Gente de Atitude” é com o Presidente da Guarda Mirim, Hélio Candido do Carmo, um personagem que participou da vida da Instituição e que hoje ajuda outros adolescentes a percorrem seu caminho rumo à capacitação profissional e à dignidade.
Foto: Hélio Candido do Carmo e a Fundadora da Guarda Mirim, Léa Leone Viana.
Onde nasceu, quando veio para Foz do Iguaçu e por quê?
R: Helio Candido do Carmo, nascido em 04/05/1968, natural de Minas Gerais. Ainda quando eu era bebê, viemos para o Paraná, onde residimos na cidade Nova Aurora do Iguaçu. Depois moramos um período no Paraguai e em 1977 meus pais, preocupados com a formação educacional de seus filhos, nos trouxeram para Foz do Iguaçu.
Atualmente, você é Presidente da Guarda Mirim, mas você já foi integrante do projeto? Como começou sua história com a Guarda Mirim?
R: De início foi por iniciativa de meu pai, pois a intenção era que os filhos ajudassem nas despesas da família; depois a convivência com outros adolescentes e também as atividades desenvolvidas me motivaram a continuar na instituição. Fui encaminhado ao mercado de trabalho e posteriormente fui convidado a trabalhar dentro da instituição exercendo funções administrativas, coordenação, diretoria e finalmente em 2005 fui eleito pelo Conselho Deliberativo para a função de presidente.
Em que ano foi? Como funcionava a Guarda à época?
R: Fui efetivado em 1980. As ações eram de cunho paramilitar, ou seja, os adolescentes recebiam ordem unida, usavam uniformes, realizavam acampamentos, cursos para cabo, sargento e outros da hierarquia militar, mas também eram encaminhados para o mercado de trabalho como office-boy ou empacotador.
Quais eram as dificuldades encontradas pelos adolescentes em situação de risco neste período? Quais foram as suas?
R: São as mesmas de hoje. Dados de 2005 apontam que Foz do Iguaçu tinha uma população infanto-juvenil de aproximadamente 36mil e que destes apenas 7 mil estavam colocados no mercado de trabalho, ou seja, pouca inserção do jovem no mercado de trabalho e poucas vagas em instituições que trabalham na capacitação e profissionalização dos mesmos, agora quero abordar essa questão “situação de risco” entendo que o fato da criança/adolescente não ter seus direitos assegurados, tais como: direito à vida, à saúde, à alimentação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência comunitária, ou até mesmo a pobreza, não significa dizer que estão em situação de risco. Situação de risco pessoal/social na infância e adolescência ao meu ver são: casos de exploração e abuso sexual, abandono e negligência, abuso e maus-tratos na família e nas instituições, exploração do trabalho infantil, violência doméstica, tráfico de crianças e adolescente, uso e tráfico de drogas, conflito com a lei, em razão de cometimento de ato infracional, ou seja, sendo aqueles casos identificados pelo Conselho Tutelar, o que não é o caso de muitos dos adolescentes atendidos pela Guarda Mirim, então se você me perguntasse se a Guarda Mirim atende também adolescentes em situação de risco, diria que sim, pois todas as instituições que atende criança e adolescentes e que tenham registro no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescentes devem atuar como retaguarda do Conselho Tutelar.
A Guarda Mirim sofreu transformações no decorrer dos anos, qual a sua avaliação sobre o modelo implantado no regime militar e e pós - ECA? Quais as principais diferenças?
R: Esse é um tema muito polêmico entre os ex-adolescentes, pois freqüentemente sou questionado e pressionado a voltar atender no regime militar sob a alegação de que antes os adolescentes eram mais disciplinados e que agora eles só tem direitos, mas acho que isso é saudosismo, então tenho que mostrar as diferenças que existe pós ECA que passou a tratar criança e adolescentes como cidadãos, com direitos pessoais e sociais, ou seja a criança e o adolescente passam o ocupar posições de igualdade em relação aos adultos, o que significa a participação em todas as decisões que afetarão o seu presente e seu futuro. Mostro a eles que antes éramos encaminhados para o mercado de trabalho sem garantias previdenciárias e trabalhistas e que hoje todos os adolescentes atendidos possuem o registro na CLT como aprendiz; que do nosso salário era descontado 22% para manutenção das ações da instituição, desconto esse considerado ilegal, pagávamos multa por não estar o coturno bem engraxado e hoje recebem salário mínimo integral sem qualquer desconto, situações essas que quase levou o fechamento da Guarda Mirim devido a uma intervenção do Ministério Público do Trabalho pelo fato de estar encaminhando adolescente para o mercado de trabalho de forma irregular. Sobre essa questão disciplinar aponto que em nada se difere, apenas tiramos o uniforme a disciplina é a mesma, ou seja, para cada direito há um dever a ser cumprido e por isso tem dado certo.
Qual é o percentual de adolescentes recuperados? E para você, recuperar é integralmente possível, ou é necessário prevenir?
R: Não trabalhamos com uma casa ou clinica de recuperação, a missão é a proteção social básica, contudo, quando do surgimento de vaga não fazemos distinção, o importante é que estejam freqüentando a escola, porém a partir do atendimento detecta-se alguns adolescentes que são usuários e caso o adolescente queira ajuda, faz-se o encaminhamento a quem de direito, mas acredito na recuperação...
Como a entidade se mantem?
R: Os recursos são obtidos junto ao Poder Público Municipal e empresas privadas, quer seja por meio de subvenção ou na contratação de adolescentes o que origina uma taxa de administração para fins de manutenção e sustentabilidade parcial das atividades.
O que é preciso para fomentar o trabalho de capacitação aos jovens?
R: Nós temos uma demanda 4800 adolescentes que estão aguardando uma oportunidade de ingressar, porém nem todos serão atendidos devido a falta de recursos financeiros para abertura de cursos de aprendizagem, investimento e ampliação da infra-estrutura fisica, para isso temos que buscar apoio dos poderes constituídos para que estes quando da elaboração da proposta orçamentária que priorizem a execução de políticas públicas voltadas à criança e ao adolescente,
Na sua opinião, quais os fatores que levam à marginalização do adolescente?
R: São vários, mas citarei alguns que possa ter contribuído, tais como o direito a ter um pré natal, alimentação adequada, moradia digna, escolarização adequada, a profissionalização, ao esporte, cultura e lazer, além dessas ausências de atendimento básicos, também temos toda a situação familiar.....
Existe um senso comum na cidade, incentivado pela classe média, de que a violência em Foz do Iguaçu é fruto do tráfico de drogas, o que você pensa disso?
R: Em parte eu concordo, mas não é só isso é a falta de oportunidade, desemprego, ausência familiar.
Contudo, em todos os municípios brasileiros, a violência ocorre independente do tráfico. Então, o problema é mais profundo. É possível superar a violência?
R: Sim, através de campanhas, adoção no nosso cotidiano da cultura da paz, ser harmonioso e solidário nas relações e respeitar os limites dos outros, ser capaz de entender as diversas opiniões, dizer não a violência e principalmente saber respeitar as diferenças sejam elas quais forem.

1 Comentários em Presidente da Guarda Mirim, Hélio Candido do Carmo.
jose
04/05/2011parabéns Hélio