Ivania Ferronato: uma vida dedicada ao outro
Nascida em Fagundes Varela no Rio Grande do Sul, a trajetória de Ivania Ferronato, diretora de projetos da Fundação Nosso Lar, é marcada pela preocupação com o destino de muitas vidas vitimas do abandono e do desafeto social. A missão de pessoas como Ivania é proteger crianças e adolescentes abandonados pelos pais ou com dificuldades de relacionamento com a família, possibilitando uma nova perspectiva de vida. Este trabalho é desenvolvido pela Fundação Nosso Lar, instituição não-governamental sem fins lucrativos que prevê a garantia do direito à convivência familiar e comunitária a crianças e adolescentes que são vitimas de negligência, maus tratos, exploração, crueldade, abuso ou opressão. Criada em 1996, a Fundação abriga atualmente cerca de 50 crianças e adolescentes em quatro casas-lares.
Como você chegou a Foz do Iguaçu? Alguma relação com projetos sociais?
Eu já havia trabalhado no Uruguai em um projeto social, e também trabalhei durante muitos anos no Paraguai, por mais de 15 anos. No Paraguai, eu trabalhava nas aldeias infantis junto ao SOS quando o Padre Arthur, que desenvolvia o projeto em Foz em 1996, me convidou para trabalhar no projeto Servim, instituição precursora da Fundação Nosso Lar. Então, como eu desenvolvia projetos de casas-lares nas aldeias, atendendo crianças em pequenos núcleos como se fosse família, fiz a proposta ao Padre Artur de implantarmos esse regime de atendimento, para que os 40 meninos pudessem ser divididos em grupos, por afinidade, por idades, por critérios. Na época eram só meninos e aí começamos o projeto com quatro casas. Nesta época, conheci o Valtenir, que era educador da Prefeitura e primeiro pai-social da Casa Lar.
Qual a diferença entre o Servim e a Fundação? E por que a mudança?
O Servim precedeu a Fundação Nosso Lar, ou seja, ele precisou morrer para nascer a Fundação Nosso Lar. O Servim era um tipo de orfanato onde moravam 40 meninos em um espaço único, muito difícil, hoje todas as orientações e os grandes estudiosos fazem com que a gente repense essa forma de instituição total, onde a criança faz tudo ali dentro, tirando dela o direito de convivência familiar e comunitária, virando um depósito e acaba não tratando o indivíduo como deveria ser. Então, quando você faz em pequenos núcleos, uma casa lar, com estilo diferencial, em que é um casal ou uma pessoa sozinha que cuida de cerca de 10 jovens que tem uma vida comum como qualquer outra, eles freqüentam escola, fazem curso e são trabalhados com sua família. Quando a criança chega, ela não é uma criança que veio do nada, ela veio de algum lugar, então a gente tem que pesquisar de onde ela veio, que família é essa, se ela tem tio, tem avó, se tem família extensa, algum padrinho, etc. Esgotadas todas as possibilidades, você encaminha para adoção ou para autonomia. Antes disso, você tem que investir nessa família para que a criança possa retornar ao seio familiar.
Para você, o desprendimento e dedicação ao outro está relacionada com a indignação e protagonismo?
Toda minha trajetória tem a ver com movimentos, desde movimento da igreja, movimento Viva la gente, que era pela unidade da América Latina, pela valorização do jovem, pela responsabilização, porque o jovem tem que ser protagonista. Então, desde cedo eu entendi que eu deveria colocar a minha juventude a serviço de alguém. E eu me sinto muito feliz. Você imagina o que é ser feliz, ganhar para fazer o que você é apaixonada para fazer e isso não tem mérito nenhum, não sou guerreira, não sou mulher diferente dos outros, não sou mulher santa, nada disso, porque eu faço o que gosto. Eu seria santa se eu fizesse uma coisa que não gostaria de fazer e fizesse bem. Eu sou apaixonada pelo que eu faço e descobri minha vocação através dos movimentos sociais e políticos.
Houve mudança nos paradigmas da Assistência Social no País?
Com certeza, a gente avançou muito, e quando a gente discursa ou fala sobre dificuldades que tem, a gente peca por dizer: “avançamos, avançamos nisso, naquilo” porque as mudanças não ocorrem da noite para o dia, historicamente a gente vê isso, por mais que a gente deseje ardentemente que a mudança seja imediata perante o sofrimento do outro, eu acho que a gente tem consciência, principalmente que o estudo nos dá, de que nenhuma mudança ocorre assim, ela tem todo um tempo, são anos de aprendizado de uma coisa errada e anos para reconstruir e refazer, é a mesma coisa com uma menina que chega no abrigo com 15 anos, cheia de aprendizados, você vai mudar da noite para o dia? vai inculcar valores da noite para o dia? Não, às vezes você vai levar o mesmo tempo da construção para desconstruir e reconstruir.
E o modelo?
Essas mudanças se refletem no modelo.

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Nascida em Fagundes Varela no Rio Grande do Sul, a trajetória de Ivania Ferronato, diretora de projetos da Fundação Nosso Lar, é marcada pela preo