Lyrio Bertoli: um homem que não se cansa de sonhar
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Lyrio Bertoli: um homem que não se cansa de sonhar

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Os tempos passam, pessoas passam, os sonhos permanecem. Esta frase marcou nossa entrevista com o ex-deputado e poeta Lyrio Bertoli, que testemunhou e atuou ativamente no desenvolvimento da região oeste. Na graxa do sapato, o sonho de Lyrio Bertoli já faiscava embaixo de uma sacada, mas não de qualquer sacada, olhando lá de baixo do famoso hotel Majestic, Lyrio olhava para o céu de Porto Alegre e enxergava Mário Quintana. Esse é um dos trechos da vida Lyrio Bertolli, que mais do que um político, o primeiro deputado federal da história do oeste paranaense, administrador e advogado, Bertolli é um sonhador. “Pensei um dia que eu seria um poeta, e pra mim eu sou, porque vivo sonhando até hoje, a gente tem que sonhar com o amanha, senão não há sentido na existência”. Lyrio contou que percorreu muitos caminhos e decidiu, após uma visita familiar, residir no oeste paranaense, especificamente em Cascavel; e de engraxate quando olhava para o céu estrelado de Porto Alegre, foi trabalhar na aviação. Aqui, no solo do oeste, iniciaram duas grandes paixões que atravessam o tempo: a política e a esposa, Amália Thereza Galafassi Bertoli, com quem tem três filhos, Lyrio César Bertoli, Cícero Fernando Bertoli e Wilson Marcelo Bertoli. “Eu vinha muito a Foz em virtude da Real, mas vinha pra cá por causa da Ieda, que fugia do colégio para namorarmos”. Mas não foram os sonhos que o levaram a ser o primeiro deputado federal do oeste do Paraná em 1962: foram as circunstâncias. “Estava viajando e fiquei sabendo pela Gazeta do Povo que era candidato a deputado federal, eles escolheram meu nome no PDN”. Nesta época, Lyrio trabalhava na aviação Real e conhecia muita gente, mas nunca acreditou que poderia ser eleito pelo oeste paranaense, até que um determinado dia fora convencido pela força de sua palavra e resolvera se lançar na campanha. “Lembro que em um comício em Rondon, fiz um discurso e vi na pausa do discurso, um alemão dizer “esse baixinho aí quando começa a falar vira um gigante”, aí eu pensei “eu vou me eleger” não só com votos do oeste, mas com votos além do rio Piquiri, à esquerda do Iguaçu e vou me eleger, e trabalhei, trabalhei e acabei me elegendo”, relembrou. Esta decisão mudou os rumos da política no oeste do Paraná, com a presença marcante de Bertoli na Câmara Federal, o oeste começou a ganhar uma existência política jamais vista. À época, Bertoli lutou pelo desenvolvimento da região através da intervenção pela abertura de estradas, como a chamada BR 35, hoje BR 277, que de tantas vezes pronunciada e exigida por Bertoli, lhe rendeu o apelido de deputado 35. Ao todo, foram feitas 84 intervenções e discursos em defesa da conclusão e do asfaltamento da BR 35, em cada pronunciamento que o deputado fazia na tribuna da Câmara, a sigla "BR-35" sempre aparecia. A abertura ao desenvolvimento veio acompanhada pelas ações em defesa das questões agrárias, do Plano Nacional de Viação, proposta de utilização pelo governo dos recursos oferecidos pelas Sete Quedas do Rio Paraná, tendo sido autor e relator de diversas comissões parlamentares, em especial sobre problemas de propriedade do Oeste do Paraná, energia no Nordeste e a concessão da ITT na telefonia de Curitiba. Primeiro contato “Sou um gaúcho emprestado, eu nasci em Santa Catarina, com 8 anos fui para Porto Alegre, fiquei até os 17 anos, aos 21 cheguei em Cascavel, em 13 de dezembro de 1950, sou formado em direito, administração e fiz curso de planejamento na Universidade de Brasília quando era deputado. Eu sempre fui muito revoltado, sou órfão, meu pai morreu quando eu tinha 3 anos, então sinceramente tive uma vida bem vivida, de sacrifícios, e comecei como engraxate. Fui vice-presidente do centro estudantil blumenauense, como vice-presidente fui expulso pelos padres franciscanos por divergências. E vim pra Cascavel em seguida. Fui agente da Real, antiga companhia que absorveu a Panair, que fazia vôos em Foz do Iguaçu no Gresfi e fui 12 anos agente da Real, encarregado de acompanhar o abastecimento das aeronaves. Essa foi a minha primeira ligação, a segunda, minha atual esposa estudava aqui no São Jose, eu saia de cascavel pra fazer ela fugir do colégio pra namorar, as duas histórias prosseguem até hoje. Palavra e Poesia Em Cascavel, o primeiro jornal foi o Correio do Oeste, o diretor era o Celso Sperança e o redator era eu, em Foz naquela época, em 53, o João Lobato Machado já havia fundado “A Notícia”, sempre fui ligado às coisas de ler e escrever e sempre fui um sonhador. Pensei um dia que eu seria um poeta, e pra mim eu sou, porque vivo sonhando até hoje. E o gosto que eu tenho de ver o horizonte da vida e vivê-lo, quem lê é rico. Nós somos natureza, somos seres racionais, o homem de ontem e o de ontem são os mesmos, só que a época de mudanças e as mudanças de épocas são outras, hoje existe o consumismo, a tecnologia que trouxe inovações importantes, mas que nunca acabarão com sonhos dos jovens, adultos, velho, poderão fazer o que quiserem, o sonhador jamais acabará. A gente tem que sonhar com o amanha, senão não há sentido na existência. Os passos decisivos para a entrada na Política Em 1960, o oeste do estado do Paraná era constituído por três povos, Guaíra, Foz e Laranjeiras, e começaram a surgir empresas colonizadoras, surgiu Toledo, Rondon, Guaraniaçu, Cascavel era distrito, e o oeste se expandiu e nós sempre votávamos em candidatos de fora, de outras cidades, quando fui eleito deputado, as pessoas me perguntavam se eu era do sudoeste, eu dizia não, sou do oeste. Então eu mudei essa cultura de eleição de candidatos de outras regiões. Nesta época em Cascavel, eu participava do antigo PSD, mas não tinha muito interesse em política, o Prefeito de Toledo Egon Pudell, vendo a expansão do oeste entendeu que deveríamos ter os nossos candidatos a fim de adquirirmos a nossa identidade. Essa decisão mudou os rumos da política paranaense? Isso mudou o rumo do Oeste do Paraná porque com a eleição dele para deputado estadual e a minha como deputado federal, nós criamos uma identidade, a nossa identidade política. Eu fui eleito e escolhido sem saber, eu estava em Camboriu, fui ver meu avó, e fizeram uma reunião, o Egon Pudell fez reunião para aproximar Cascavel e Toledo, porque todos os votos da região quase não chegariam para eleger candidato federal, colocaram a mim para ser candidato parceiro do Egon, falaram “vamos colocar o Lyrio Bertoli para ser, porque eu era da Real, era conhecido, tinha um equilíbrio financeiro” foi quando eu li na gazeta do povo que eu era candidato e não sabia. No primeiro momento eu disse que não queria ser candidato, que não tinha interesse, mas sempre gostei de oratória, desde estudante, além da prática no mundo da advocacia. Então, os que me escolheram sabiam que eu falava bem, aí eu não aceitei, pensa pra cá, pensa pra lá e acabei aceitando, lembro que em um comício em Rondon, fiz um discurso e vi na pausa do discurso, um alemão dizer “esse baixinho ai quando começa a falar vira um gigante”, ai eu pensei “eu vou me eleger” não só com votos do oeste, mas com votos além do rio Piquiri, à esquerda do Iguaçu e vou me eleger, e trabalhei, trabalhei e acabei me elegendo. Só em São Miguel fiz quase 80% dos votos válidos, e isso sem a população me conhecer, então a avaliação era de que o povo do oeste não votou em Lyrio Bertoli votou no candidato regional, porque o povo do oeste ama sua terra, ama o oeste. Você perguntava, vai votar em quem? “Vou votar no candidato regional”. E por isso me bate aqui em Foz do Iguaçu muito, para que Foz do Iguaçu tenha seus próprios candidatos, e que o oeste se unisse, mas sabemos que é difícil porque os pólos industriais são Cascavel, Toledo, Rondon e Medianeira. E a nossa vocação é turismo. Se colocarmos uma linha do tempo e demarcarmos a região oeste antes e depois de ter um deputado federal, o que pode se verificar? Antes nós pedíamos favores aos Prefeitos, ficávamos na dependência. Foz do Iguaçu, particularmente tinha gente do norte, do sul, de vários lugares, por isso Foz nunca teve uma união política, ao contrário de Cascavel, quando houve uma época que perguntava “De onde você é? e o cascavelense batia no peito e dizia: sou cascavelense” essa era uma das minhas preocupações, esta passando essa época, agora esta mudando, agora quem mora em Foz do Iguaçu, bate no peito e diz eu sou iguaçuense, mas não era assim. Esta mudança que elevou a auto-estima e a identidade é fruto daquela semente plantada. Como se deu sua participação no mundo literário? A academia de cultura aconteceu depois que encerrei meu segundo mandato de deputado federal, à época estava a Nanci na Fundação, o Nilton Bobato também participava, já os antigos até hoje acho que não mensuraram bem a importância da academia da cultura, mais, eram os novos na época. Nós fizemos diversas revistas editadas, eu era amigo do falecido Túlio Vargas, na época Presidente da Academia Paranaense de Letras, que vinha prá cá diversas vezes, e estimulava a criação de academias. Sempre fui amante da poesia e dos sonhos. Todos nós temos sonhos. Na sua visão, esta rivalidade entre Cascavel e Foz é fruto do quê? Eu não vejo dessa forma, eu vejo que Foz do Iguaçu tem um destino, uma vocação turística, Cascavel é o centro geográfico que se tornou automaticamente um pólo, já que por lá passam as riquezas da agroindústria, e de indústrias, e teve uma intenção antigamente das lideranças de Toledo de mudar o traçado da BR 35, e Cascavel era e é um pólo estratégico, com uma associação comercial e industrial ativa, e o povo de Cascavel diferencia-se do povo de Foz, porque lá tem mais amplitude de ramos industriais, e Foz fica na fronteira, cuja vocação é o turismo. Houve a migração do Sul e junto com ela, que eram muitas pessoas, muito conhecimento para Cascavel. Eu vejo Cascavel pólo geográfico, mas isto não diminui Foz, esta rivalidade entre cidades é salutar quando bem dirigida, e ela quando é somada se torna uma força, porque ao invés de falarmos de Foz do Iguaçu ou Cascavel, vamos falar do oeste do Paraná, calcule a riqueza de Guaraniaçu par cá, entre os rios Piquiri a Iguaçu, o número de eleitores, o potencial econômico. Última eleição de deputado federal para Foz foi em 90, isso também pode ter influenciado esse descompasso no desenvolvimento entre Cascavel e Foz? Esta realidade é fruto de erro da ambição pessoal de políticos de Foz do Iguaçu, nós tínhamos na mão uma riqueza muito grande que era o número de votos, mas a paixão pessoal de cada um, um não renunciava e o outro não, era choque de interesses pessoais, e não coletivos. Quais as mudanças significativas do mandato como deputado federal? Acho que a mudança mais significativa foi o surgimento da identidade e de lideranças, que despontavam em toda região oeste, naquele tempo, é incrível, mas as empresas colonizadoras, elas se adiantavam à iniciativa pública, então tinha que fazer toda uma operação para realizar o desenvolvimento através do Estado. Acho que aqui, com minha eleição, potencializou a agroindústria, faculdades, comércio, em vários setores. Nós aqui, nós temos as mais férteis terras do planeta, poucos sabem disso, e aqui em Foz do Iguaçu, vivem mais de 70 etnias, e todos trouxeram conhecimento, somando as águas, e a fertilidade com o conhecimento, veja a riqueza e o futuro brilhante que teremos. Foz caminha para deixar de viver de ciclos para inaugurar um novo período consistente com a Unila e o Ifet, qual é a dimensão destes centros educacionais? Eu pergunto: O que era a Constantinopla, Grécia, Roma, o que fizeram deles os povos do oriente: O conhecimento, lá nasceu a democracia. Agora imagine o que significará a Unila e outros institutos de ciência para Foz, para a região e também para a América do Sul. É claro que isso não se fará de um dia para o outro, mas as águas, desde o Eufrates e o Tigre, representam o desenvolvimento, então daqui a anos vamos ver o que se tornará, a importância do conhecimento para o desenvolvimento. O Senhor falou que o desenvolvimento não acontece por espontaneísmo, para que a cidade se consolide neste caminho necessita de forças políticas, como a representação de um deputado federal? Os homens passam, mas não Foz do Iguaçu como oeste do Paraná precisa de representação, nós somos uma federação e precisamos ser representados, todos os setores, turismo, agricultura, entre outros, precisam ser representados. Isso é uma responsabilidade dos políticos de Foz, o povo entende a necessidade, este é o rumo do oeste do Estado do Paraná. Precisamos ter deputados federais, mas sabemos que é difícil diante dos interesses econômicos que sobrepõem os interesses coletivos da maioria dos candidatos. Mas acredito que poderemos eleger candidatos sérios.




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