O paradoxo da eleição de 2008
Opinião

O paradoxo da eleição de 2008

...

por Nilton Bobato

Foz do Iguaçu viveu um paradoxo nas eleições de 5 de outubro. Continuidade e ao mesmo tempo renovação. A população revelou o desejo de manter o que estava certo do Poder Executivo, mas deu um recado claro de que queria renovação na forma de fazer política na cidade. Essa expressão foi mais forte na eleição da Câmara Municipal, no entanto se engana quem imagina que a reeleição do prefeito Paulo foi um cheque em branco (falaremos disso nos próximos dias).
Mesmo na eleição da Câmara, a renovação buscada não foi apenas nos nomes (até porque, historicamente, a Câmara sempre teve uma renovação alta). O perfil do eleitorado mudou, basta ver a história da maioria dos candidatos eleitos. São lideranças emergentes da cidade e consolidadas através de um histórico de trabalho, representando setores significativos da sociedade local. Nenhuma aventura de última hora, poucos eleitos por estruturas gigantescas e caras. Além, é claro, de um recado cristalino àqueles políticos que não entenderam o seu papel como representantes do povo.
Muitos imputam somente ao rigor (digno de aplauso) da Justiça Eleitoral a mudança do perfil da campanha. Outros ao equívoco cometido na condução do trabalho legislativo por parte de alguns vereadores. As duas visões estão certas, não são exclusivas e nem excludentes, porém acreditar que somente estes dois fatos, que se relacionam apenas ao resultado eleitoral, sejam os responsáveis pela renovação no perfil dos eleitos, é simplificar muito a análise. Lembrando que a simplificação leva ao esquecimento da história e ao não reconhecimento de questões de fundo que levaram a este sentimento de renovação.
A cidade mudou e não mudou apenas na véspera da eleição. A cidade vem mudando o seu perfil há alguns anos.
A explicação é simples (não necessariamente nesta ordem de importância): a) deixamos de ser uma população composta em sua maioria por aventureiros que buscavam estabilidade financeira e depois retornavam as suas cidades de origem; b) os filhos dos trabalhadores da Itaipu (que vieram e demoraram para entender que faziam parte desta cidade) cresceram e hoje integram a vida local, como cidadãos iguaçuenses; c) os efeitos sociais do Governo Lula, a estabilidade do processo comprista no Paraguai e as próprias políticas sociais do Governo Paulo, criaram novas demandas para a população mais pobre da cidade, libertando muita gente dos favorzinhos eleitorais; d) por último (mas não definitiva), construímos um grande número de cidadãos com nível superior, uma enorme vida acadêmica, que debate os problemas locais e coloca uma nova visão sobre o processo político.
Tudo isso se consumou com o rigor da Justiça Eleitoral, com juízes comprometidos com o processo (também frutos das transformações desta cidade).
Quem não entender isso, quem achar que as mudanças vislumbradas no último pleito eleitoral são passageiras e restritas à eleição, está fadado ao enterro político. Quem continuar achando que política em Foz se faz apenas com joguinhos rasteiros, achaques e conversinhas superficiais, está acionando sua própria bomba relógio.
Este é o maior desafio da legislatura que se inicia no dia 1º de janeiro: entender que as exigências da população são outras e trabalhar neste sentido.
As negociações para compor a mesa diretora da Câmara ou para uma maioria consolidada de apoio ao Governo Paulo deixarão claro se esta maioria dos eleitos compreendeu os sinais de mudança e continuidade emitidos pelas urnas.




3 Comentários em O paradoxo da eleição de 2008

  • Andersen Viana

    16/12/2008

    Excelente anáise. Pode servir de referência para muitos estudiosos do assunto e para os políticos atuantes nos milhares de municípios de um país de grandes contrastes e contradições, e em constante mudança.

  • Noraldino Santos Nascimento

    16/12/2008

    Foz do Iguaçu ainda tem muitos problemas. Alguns são históricos. Entretanto, quando quase 70.000 pessoas vão às urnas e confirmam o rumo da cidade, ter-se-á mais esperança, pois ela própria será guardiã de seu destino e não permitira que a Câmara seja palco de negociações escandalosas.

  • Andersen Viana

    10/01/2009

    # Andersen Viana 16/12/2008 Excelente análise. Pode servir de referência para muitos estudiosos do assunto e para os políticos atuantes nos milhares de municípios de um país de grandes contrastes e contradições, e em constante mudança.

Deixe seu comentário

por Nilton Bobato Foz do Iguaçu viveu um paradoxo nas eleições de 5 de outubro. Continuidade e ao mesmo tempo renovação. A população revelou