Arte local entrevista escritora Jeane Hanauer
Na gaveta, repousava, silenciosamente, a ironia, a provocação e a inquietude. No cerco fechado, repousava íntegra e silente, até sair ao mundo, a escritora de “Lobos no Telhado”, “Flor e Cimento” e “Cronópio Godot”. Com a inquietude emocional e psicológica de Clarice Lispector à contestação de Júlio Cortazar, Jeane Hanauer tece com palavras a sublimação do homem.
O arte local traz a Mestre em Letras pela UFRGS, Professora da UDC Medianeira e colaboradora da Terraqua Produções, Jeane Hanauer. O novo livro, "Cronópio Godot", prefaciado por Pedro Bandeira e com o registro do escritor Leonardo Brasiliense na contra-capa, foi selecionado pelo Conselho de Editoração da Secretaria de Estado da Cultura, onde está sendo editado.
O processo de escrita de Jeane Hanauer, que resultou nos três livros foi gestado em gavetas durante anos. Alimentado por inspirações e apreensões do cotidiano, Jeane Hanauer traz o seu olhar sobre o mundo, com impressões singulares e também de referenciais clássicos que irradiam a sensibilidade e nos remetem a Antoine de Saint- Exupéry em “O pequeno Príncipe”, obra sempre citada pela escritora.
Os escritos de Jeane tem algo a dizer, e tanto a tocar.
“Para o poeta,
a palavra é via de acesso ao mundo.
Lupa.
Binóculo.
O mundo não lhe chega de forma direta.
A palavra é o tapete vermelho
sobre a poça de lama.
E vice-versa.”
Onde nasceu?
Nasci em Foz do Iguaçu, dentro do Parque Nacional, saímos da área onde hoje é o Parque quando eu tinha 6 anos; os colonos na época compraram terras que depois foram desapropriadas. Tenho poemas que brinco com isso. Moramos 10 anos no local e desapropriação foi um episódio triste na vida dos antigos moradores, porque foi uma história interrompida. Depois fomos para Santa Terezinha.
Como se deu a relação com o mundo da escrita?
Eu sempre gostei de ler muito, lia obsessivamente, sempre gostei de escrever. Desde o magistério, lembro que as primeiras coisas que arrisquei escrever foi no magistério, eu era adolescente, tinha 14 anos.
E quais foram as primeiras obras que te influenciaram? Você lia obras aleatórias, tradicionais ou direcionava a leitura para autores?
Eu fui na contramão das leituras que o professor de literatura brasileira indicava, eu não bem o porquê mas eu não o que ele dizia que deveria ler, eu fui à revelia do que deveria ler. Eu li Ágatha Cristie, não sei como eu cheguei a esta altura, foi uma fase. Eu lia dois livros por semana. Depois comecei uma série de leituras, que progressivamente foram me levando a outras leituras, quando comecei a ler várias coisas sobre filosofia oriental.
A filosofia oriental foi uma busca individual?
Uma busca pessoal minha, fiz um corte com o cristianismo, especificamente com a Igreja Católica. Me caiu uma ficha de que deveria me afastar dos preceitos da Igreja Católica. Mas também logo vi que não tinha nada a ver comigo. Os horizontes que eu via para mim e queria estavam na contramão disso. Aí comecei ler coisas de todos gêneros, no sentido de autogestão, não orientado por alguém.
Qual é o significado dos títulos dos livros?
Sempre procuro encontrar um título que seja provocativo e meio enigmático e que traduza os universos que os livros abordam. Lobos nos Telhados: eu gosto de lobos, e o título também remete a Walt Whitman, que fala, em um poema, algo mais ou menos assim "emite meus ganidos sobre os telhados do mundo". Tomei conhecimento disso no filme Sociedade dos Poetas Mortos. Dois poetas são abordados ali: Whitman e Thoreau. E são dois autores que depois fui pesquisar e aí surgiu o título.
Flor e Cimento: o titulo é um jogo cuja leitura produz Florescimento. O livro surgiu numa fase em que minha vida estava "florescendo", meio por aí. E também queria encontrar dois elementos opostos , meio pra falar da "flor" e do "cimento" que é a vida.
Cronópio Godot: o titulo é uma brincadeira, uma provocação e também uma estratégia "mercadológica". Mobilizo dois autores que me fascinam - Cortázar, e seu livro Histórias de Cronópios e Famas ; e Beckett e sua peça teatral Esperando Godot. Com este livro levanto uma espécie de "tese" hilária de que Godot é um cronópio e que " vale a pena esperar Godot.". O livro resume a tese de que "fora da arte não há salvação".
E o processo de inquietação na sua escrita?
No magistério, tinha muitas perguntas, perguntas, perguntas... muitas angústias, coisas existenciais. Sempre fui muito absorta, reflexiva. Em função de leituras, fui começando a colocar no papel.
Teve influências do existencialismo?
Do existencialismo, especificamente não, de Sartre, somente recortes. Mas assim, eu comecei a escrita, e continua sendo até hoje, como cano de escape; os poemas vêm aleatoriamente, por necessidade. Nunca foi uma coisa assim “hoje vou sentar e escrever um poema, ou vou me dedicar à escrita e um dia me tornar escritora”. Eu simplesmente ia registrando coisas que ao meu redor eu via, flagrantes, coisas que me davam um fio de meada e me davam necessidade de escrever.
E o que fazia com o que escrevia?
”Lobos nos Telhados”, de poesias, foi publicado em 2000. Neste período eu encasquetei, tinha muita coisa escrita guardada, e aí falei “podia publicar”, não sei nem como surgiu a vontade. Foi uma coisa totalmente artesanal. Pensei “vou arriscar”. Eu descartei muitas coisas, peguei uma parte pequena de tudo que escrevi.
Quais são os sentidos que imprime na escrita? Pretende causar identificação com o leitor ou o contestatório, a provocação?
Como eu trato de temas do cotidiano, que de alguma maneira ou outra fazem parte da vida das pessoas – alguns poemas fazem referencias a autores, a determinadas teorias e elementos da literatura – mas a maioria dos poemas são flagrantes do cotidiano. São coisas engraçadas a respeito de si próprio. Acho que a maioria dos poemas são provocativos, quase sem exceção, sempre no sentido de dar alfinetadas, e deixar o leitor com a pulga atrás da orelha e surte bom efeito nas pessoas. Quando alguém pega o livro e depois entra em contato comigo sempre tem a coisa “nossa me identifiquei com os poemas”. Eles têm o teor irônico e ácido. Não gosto daquela coisa de água e açúcar, ele tem que provocar.
E as influências no processo de criação?
Clarice Lispector é uma figura que inevitavelmente, direta ou indiretamente, está presente na minha vida. Sou uma aprendiz dela. Desde que descobri universo de Clarice, me identifiquei e achei em Clarice uma interlocutora, sobretudo pelo monólogo interior e psicológico de Clarice. Também busco Caio Fernando Abreu e Raduan Nassar, o último escreveu o romance “Lavoura Arcaica”. Neste novo livro eu cito Raduan. Outro autor é o escritor argentino Júlio Cortázar.
Nas três obras existem “Jeanes” diferentes, houve mudanças?
As temáticas presentes em “Lobos nos Telhados” e “Cronópio Godot” há coisas em comum, que sempre estarão presentes, mas há coisas que eu abandono. Por exemplo, o que vai ficar: os poemas curtos. A maioria dos poemas é jogo rápido, isto é próprio meu. Têm alguns temas de “Lobos nos Telhados” que não estão em “Cronópio Godot”, justamente em função das fases. Em “Cronópio Godot” evito tocar em alguns temas, mais pessoais.
Para você, ler e escrever representa...
Escrever para mim é uma questão de posicionamento. É uma via e uma escolha de vida. Passa longe da questão de escrever porque é bonitinho. É a maneira pela qual eu capto e registro o mundo. É uma instância e uma condição existencial. Nas outras artes também é assim. A leitura também passa por isso, você tem que se agarrar em alguma coisa, tipo “nossa onde vou buscar um bote salva-vidas”, eu busco na literatura, e em outras artes. Pois é na arte que busco a interlocução e como eu digo no livro, fora da arte não há salvação.
Elixir
A quase todos,
o mistério das expedições sensoriais
causa asperezas
ou assombros.
A mim, causa literatura.
Longevidade
Não pretendo estragar-me.
Conservo-me no barro de Rodin.
Em hálitos literários
que fornecem longevidade aos instintos.
Conservo-me no fio de navalha da escrita.
Para não sangrar.
Carolina
Pequena Carol
de olhinhos de sol,
te afago e te prometo
que teus poemas de açúcar
serão sempre olho d'água
nos vários desertos meus.
Latitude Zero
Para Toni Venturi, Débora Duboc e Cláudio Jaborandy
Prego pregado bem pregado
nas janelas-portas-lucidez.
Dois bichos na poeira.
Bestiais criaturas
no violento limite.
Garimpo seco.
Gente zero.
Primorosa arte viva:
viva o cinema nacional.
Modus Operandi
Para o poeta,
a palavra é via de acesso ao mundo.
Lupa.
Binóculo.
O mundo não lhe chega de forma direta.
A palavra é o tapete vermelho
sobre a poça de lama.
E vice-versa.
3 Comentários em Arte local entrevista escritora Jeane Hanauer
jeane hanauer
03/05/2011Jaque: a entrevista ficou ótima! Obrigada!
wynia lopes
03/05/2011Adorei a leitura, experimentei mais uma pequena dose de Jeane, que há algumas semanas desejo beber aos montes! parabéns e sucesso sempre!
Alice
27/05/2011Nilton Bobato, muito interessante sua entrevista. Deixo aquí meu "muito obrigada". Gostei dos poemas da Jeane Hanauer, muito.