Ildo Carbonera: professor e escritor
Ele extrai do cotidiano a matéria prima da literatura, observando a rotina, onde residem as representações sociais, o escritor e doutor em literatura brasileira pela UFRGS, Ildo Carbonera enxerga, indigna-se e utiliza a palavra para despir o real e provocá-lo.
Esta percepção e sensibilidade resultaram no seu último livro “234 posições pós-modernas, da série de crônicas “Eu era assim” que é um dos livros que está na final da mais importante premiação artística de Porto Alegre: O Prêmio Açorianos. O livro de crônicas do escritor Ildo Carbonera divide a atenção dos jurados com os outros dois finalistas: 100 lições para viver melhor, de Cláudio Moreno e Doidas & Santas, de Martha Medeiros.
Nascido em Sananduva-RS, em 11/08/55, veio para Foz do Iguaçu em 1988, é professor de letras da Unioeste/Foz, ex-músico, compositor, lançou o CD solo Consolo, é autor dos livros Como é um Rio? Chuva danada, A emboscada Machadiana, Enfim, juntos, Os animais não têm mais para onde ir, Alguém viu meu avô? e Olha para mim.
Como e quando surgiu sua relação com a literatura?
Ainda menino com o livro “Admissão ao ginásio”, era um livro didático, que tinha o poema “O acendedor de lampiões” e “Cabiúna”. Em 1978 comecei a escrever crônicas para o Correio Serrano de Iju, escrevi o primeiro livro em 1997, o “Comunhão & Só”, em 1999, “A lua e os bares”, em 2000, “A emboscada Machadiana”, “Os animais não têm mais para onde ir”, em 2001, “Chuva danada”, em 2002, “Destinos Humanos”, em 2003, “Alguém viu meu avô?”, em 2004, “Enfim, juntos!”, em 2007, “Como é um rio?”, em 2008 a série “Eu era assim, com “Olha para mim” e agora “234 posições pós-modernas”.
Qual a crítica sobre a rotina, presente no livro?
Eu simplesmente apresento os fatos como eles são, o que farei com uma pessoa que entra 200 mil vezes no banco sabendo que não dá pra passar na porta giratória com celular e mesmo assim o faz? (crônica “Posição 83”) E ainda o ser humano se acha superior a outros animais...parece que ‘Deus” criou o homem para destruir o planeta.
Posição 83
“Observadas as cenas que acontecem diária e repetitivamente nas portas giratórias dos bancos, o ser humano revela-se cada vez mais patético e assombroso. Milhões de pessoas morrerão sem perceber que não dá para passar naquelas portas com o celular na bolsa, no bolso, na cintura, na mão ou na orelha; quando a porta tranca, elas reagem indignadas: sempre esse celular!, e correm para deixá-lo naquela caixinha, sabe qual é! Muitos guardas não resistem a algumas risadinhas e a alguns pequenos comentários, rápidos, porque são muitos os que repetem a cena, dia após dia.
Qual o ponto de contato entre o professor e o escritor?
Eu não aceito ser chamado de educador, palavra associada à doutrina, partido político. Eu sou professor. Eu não leio para dar aula, pra aplicar provas, pra doutrinar, pra domesticar; eu leio para me tornar uma pessoa melhor, um profissional que vai aperfeiçoar o dom importantíssimo que é a partilha, compartilhar o conhecimento. Eu leio para mostrar aos alunos que a literatura pode ser uma bela forma de você viver melhor, se sentir melhor, escolher melhor as amizades. A literatura que eu estou falando é literatura, não é best seller, auto-ajuda...é cultura, sabedoria, discernimento, fino trato, cordialidade...Encontramos os valores, a beleza da vida, uma forma peculiar da vida ligada diretamente ao mundo. Não há nenhuma chance de uma pessoa que lê se tornar uma pessoa má, perversa, egoísta, sacana. A leitura naturalmente transforma as pessoas para o bem.
Ildo, em caso de terremoto, quais os 10 livros que você salvaria da sua biblioteca?
O livro de poesias do Fernando Pessoa, Carlos Drumond de Andrade, os livros romances de Machado de Assis, Poesia de Manuel Bandeira, livros do Lima Barreto, O nome da Rosa de Umberto Eco, Pai Patrão, O tempo e o Vento de Érico Veríssimo, São Bernardo de Graciliano Ramos, Divina Comédia de Dante Alighieri, A cidade do Sol, Utopia de Thomas Morus, Cartas a Théo do Van Gogh, etc.
Há algum caminho para trazer jovens e adultos para o mundo literário?
O caminho é simples, só que a esquerda brasileira está confundindo, infelizmente, exercício de autoridade com autoritarismo. Por que o aluno é aprovado na escola? , Porque ele aprende a educação do “não precisa estudar, ler, nem escrever para ser aprovado, essa é uma política. Por que as instituições aceitam? Por que pais, alunos, professores aceitam? Não deveria ser assim, isso que estou falando pode significar emprego do autoritarismo, abuso de poder, mas não é nada disso, a lei é simples: a lei que deveria ser aplicada partindo do MEC até as escolas mais periféricas é: aluno que não aprende a ler e escrever não pode ser aprovado. É obvio que o mundo vai começar a mudar. Agora, podem chamar isso de autoritarismo, o direito do outro e não sei o quê...isso tudo pra mim é balela...Por que o homem praticamente destruiu o direito do exercício da autoridade? Autoridade que não pode ser confundida com autoritarismo.
O olhar sobre o mundo deslinda que sombras da humanidade?
Não há mais solidariedade, não está sobrando mais quase nada, não há nenhuma chance do ser humano ser coletivo, comunitário, qual é a chance do homem deixar de ser individualista, fofoqueiro, egoísta? Não é o sistema que vai mudar, se a lei valesse para todos, mas nossa índole é assim, eu não acredito em um homem que não seja assim, porque estas categorias fazem parte do ser humano...a ganância, a ambição...O que eu posso fazer, quando existe disco de Zezé de Camargo, Chitãozinho, Latino? Eu posso pegar outro disco e colocar no carro, trocar a emissora e escutar a música que eu gosto, eu tenho este direito, escolho livros certos, coloco a música que quero, aprendi a fazer escolhas na vida em minha própria defesa...
Quais são as provocações?
A literatura instaura uma realidade, ela inaugura uma realidade através do texto, institui a nomeação do mundo...eu emprego uma metáfora, não é isso o que eu estou falando, é outra coisa, seja simbólica e alegórica, institui uma verdade, uma realidade, quando o leitor consegue sacar quando faz essa passagem, a vivência e a experimentação dessa viagem artística que esta sendo feita pelo leitor e escritor. É a conquista da universalidade.
"O diabo mora nos detalhes" diz o ditado popular; na sua escrita, onde se esconde o capeta?
O capeta se esconde para mim, por exemplo, no caixa de um banco, quando há um setor de informações, e a instituição deveria ter pessoal capacitado para orientar esse pessoal, o mundo deveria funcionar assim, mas como o grande circo está montado, me resta sentar no banco e observar o mundo que me circunda, ver pessoas pedindo informações onde não deveriam pedir...esse é exercício de autoridade e "Carbonera fica observando"...é isso que estamos oferecendo.... quem vai tomar providência...esse é o capeta que me persegue...eu tenho estrutura que me dá certas garantias...não pensei ainda em me jogar da janela..suicidar...vamos lá...consigo ainda resistir...ter a consciência de que não há quase nada mais a ser feito...
Dos escritos engavetados ou em andamento, quais se transformarão em livro?
As cidades e os asilos – o terceiro da série “Eu era assim”, A tese do doutorado que está na editora em Minas Gerais, Velhos Textos Presentes I e II (Volume 4 e 5 da série “Eu era assim”, Imigração Italiana: da Cuccagna ao Google Earth, e o livro de crônicas que estou escrevendo, sem título por enquanto.
Leiam por favor!!!!!!!Comecem a ler, por gentileza!!!!
Salvem-se, ainda há tempo!!!!

6 Comentários em Ildo Carbonera: professor e escritor
Valdir do Nascimento
16/12/2009O Carbonera é "doidão"... Quase igual ao velho Raul Seixas!
Noraldino Santos Nascimento
17/12/2009Carbonera foi meu professor na Facisa. Um profissional e tanto. Com outros também de primeira linha fui me aprofundando nas leituras, embora as obrigatórias me torturavam. Aprendi, no entanto, que elas tinham tudo a ver com as outras. Obrigado Ildo.
Ildo Carbonera
23/02/2010Iupi! Agradeço pelo espaço dispensado. Valdir e Noraldino, "eles, os cérebros do Grande Irmão Brasileiro" estão criando espaços cada vez maiores aos fãs e mentores do BBB, do Mais você, do Vrum, da Glenda, do Bial Pedro... Mas, nós não devemos desistir! Nem pregar a Revolução, o Anarquismo, a Vingança...Continuemos humildes, fazendo nossa parte!
Regina Nascimento
20/05/2010Não poderia deixar de comentar!! Grande Ildo Carbonera! Grande professor!!! Com o seu "jeito diferente" conseguiu nos ensinar muitas coisas, as quais levamos em nossa mente e principalmente em nossos corações!! O gosto pela literatura parte, sem dúvida, do incentivo de um professor e com certeza ele conseguiu cumprir com o seu papel, pois muito alunos da turma de Letras da Unioeste - 2005 aprendeu muito com ele. Pode ser que não se lembre de mim, mas com certeza nós, alunos da turma de 2005 não esqueceremos de ti professor!! Abraços, Regina Nascimento, professora de Língua Portuguesa.
Regina Nascimento
20/05/2010Não poderia deixar de comentar!! Grande Ildo Carbonera! Grande professor!!! Com o seu "jeito diferente" conseguiu nos ensinar muitas coisas, as quais levamos em nossa mente e principalmente em nossos corações!! O gosto pela literatura parte, sem dúvida, do incentivo de um professor e com certeza ele conseguiu cumprir com o seu papel, pois muito alunos da turma de Letras da Unioeste - 2005 aprendeu muito com ele. Pode ser que não se lembre de mim, mas com certeza nós, alunos da turma de 2005 não esqueceremos de ti professor!! Abraços, Regina Nascimento, professora de Língua Portuguesa.
Ildo Carbonera
24/11/2010Regina, como não lembrar de uma "rainha" ? Pois o tempo passou, e a luta em defesa da Literatua é maior ainda, mais exigente, difícil, ameaçadora... Há tantas coisas que brigam pelos espaços antes ocupados pelo Munda da Literatura. Eu estou pesando: como seria bom reunir ex-alunos de Letras da Facisa e do "Campus", gravar e filmar suas impresssões sobre: o que aconteceu na minha vida durante e depois da Faculdade. Eu escreveria aqui o nome de dezenas de ex-alunos/as que obtiveram grandes conquistas, mas continuam tipo formiguinhas, quase esquecidos/as... Vamos organizar o Encontro de ex-alunos, grvado e filmado? Abraço e saudades Prof. Ildo